Título: Ensaio sobre a cegueira
Autor: José Saramago
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 310
Ano: 2006


SinopseUm motorista parado no sinal se descobre subitamente cego. É o primeiro caso de uma "treva branca" que logo se espalha incontrolavelmente. Resguardados em quarentena, os cegos se perceberão reduzidos à essência humana, numa verdadeira viagem às trevas.

O "Ensaio sobre a cegueira" é a fantasia de um autor que nos faz lembrar "a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam". José Saramago nos dá, aqui, uma imagem aterradora e comovente de tempos sombrios, à beira de um novo milênio, impondo-se à companhia dos maiores visionários modernos, como Franz Kafka e Elias Canetti. Cada leitor viverá uma experiência imaginativa única. Num ponto onde se cruzam literatura e sabedoria, José Saramago nos obriga a parar, fechar os olhos e ver. Recuperar a lucidez, resgatar o afeto: essas são as tarefas do escritor e de cada leitor, diante da pressão dos tempos e do que se perdeu: "uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos". (Sinopse retirada via skoob)


A TramaBom, falar sobre esse livro é mergulhar nos nossos mais profundos sentimentos acerca do outro. Temos aqui uma cegueira que se espalha sem motivo aparente e que acomete as pessoas bruscamente, fazendo com que o "Governo" as isolem para conter a infestação. Ainda dentro dessa ideia de infestação as pessoas são confinadas em um manicômio, um ambiente cheio de regras ditadas pelos que vêem e que estão do lado de fora; vivendo com a incerteza de uma cura, com pouca comida, sem conforto e com os nervos no seu limiar. Uma cegueira branca, onde o que mais se "vê" é a luz branca e nada mais. O que o livro tem de proposta é provocar uma profunda reflexão de quem somos, o que somos, do que somos capazes em situações extremas, o que é bem e mal, enfim toda uma rede complexa de pensamentos sobre viver em cativeiro e dentro de uma sociedade excludente e sem leis. Durante o decorrer dos dias a cegueira não tem nenhum retrocesso, a comida está acabando, as pessoas matando por um pouco de qualquer conforto possível, se tornando os animais que nasceram para ser. Até que ponto? Convido você a ler também e se questionar, encontrar dentro da cegueira, da fome e do desespero algo mais.  

ProtagonistaAqui diferente dos outros livros padrões que estamos acostumados a protagonista é sem sombra de dúvidas a cegueira súbita, o "mal branco". E acreditem ou não essa é uma protagonista de personalidade (se é que posso chamar assim) forte, ela comanda todas as pessoas que ali se encontram, mudando o que as pessoas são, ou apenas realçando o que elas fingem não ser e expondo as verdadeiras facetas dos seres humanos que estão em seu domínio... Ela extrai todos os sentimentos e os refina, percebemos aqui como a cegueira pode criar laços de amor sincero e ódio extremo (e mais um questionamento: e se você amasse algo que não vê, se pudesse ver continuaria a amar?). Ou se amando algo que vê e não pode mais continuaria assim? Será que o que os olhos não vêem o coração não sente? A cegueira branca nos mostra estas e tantas outras perguntas.


Personagens SecundáriosPodemos aqui elencar todos os outros personagens do livro, e alguns deles poderiam até ser considerados como protagonistas, devido à expressividade em todo o livro. Aqui nenhum personagem tem um nome, e nem assim se apresentam visto que como cegos não necessitam de uma "identidade". São esses personagens que lutam com a cegueira e com a sobrevivência dia após dia. Apenas um personagem aqui não está cego, e é nela que todos os relatos do livro são feitos, ela se diz cega para poder acompanhar o marido e é através dos olhos dela que sabemos o que se passa. É a mulher do médico (que ainda vê), o médico oftalmologista (o qual de nenhuma serventia tem já que cego se encontra), o rapazote, a mulher de óculos escuros, o homem da faixa preta, o ladrão, o primeiro cego e assim por diante. Esse núcleo é o primeiro a cegar e portanto os que traçam laços entre si para poderem sobreviver. Enquanto lutas, medo, angústia e incerteza tomam conta dos cegos, a mulher que vê deseja diariamente o dia em que cegará e sairá dessa situação onde ver é uma dor que talvez ser cego a aliviasse. Aqui o ditado: "em terra de cegos quem tem um olho é rei" é posto a prova.



Capa, Diagramação e EscritaEssa edição é simples. A capa é simplista, visto que não dá a ninguém uma primeira impressão sobre o tema! A escrita é um tanto cansativa já que segue um estilo de escrita próprio do Saramago, onde o indireto se liga com o direto e não se encontram pontuações que distingam quem fala ou que pausa demos nas frases. Não há travessões, aspas e pontuações como as que estamos acostumados, e isso nos deixa um pouco cansados na leitura. Com o passar das páginas isso foi ficando menos evidente, e a leitura seguiu mais tranquila. Um relato descritivo pelos olhos da mulher que ainda vê.

ConcluindoTerminei esse livro com uma sensação de agonia e revolta. Foi uma experiência fantástica e super indico se você deseja sair da zona de conforto e se permitir ver pelos olhos dos outros. Sim, o livro nos faz questionar muitas das nossas mais secretas indagações, se somos um indivíduo realmente independente; se somos projeto de uma sociedade e quando essa sociedade cai por terra quem somos? Me coloquei inúmeras vezes no lugar dos cegos, e da mulher que via, e não sei qual era pior. Não sei o que responder a cada questionamento feito durante as páginas, o que sei é que esse livro me trouxe vários e vários momentos de angústia "branca", de um medo de que ao fechar os olhos tão cega eu ficasse, mas não da cegueira dos olhos, e sim da alma.


Quotes:

"...a cegueira não se pega, A morte também não se pega, e apesar disso todos morremos..."

"...A mulher do médico disse, Todos temos os nossos momentos de fraqueza, ainda o que nos vale é sermos capazes de chorar, o choro muitas vezes é uma salvação, há ocasiões em que morreríamos se não chorássemos..."

"...Parece outra parábola, falou a voz desconhecida, se queres ser cego, sê-lo-ás. Ficaram calados..."

"...Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos..."

Adriana H. Tavares

Estou leve, como se meu coração fosse feito de milhões de bolinhas de isopor das caixas de eletrodomésticos... E o meu pensamento corre fluido como o ar das bolhas de sabão feitas pelas crianças em seus devaneios infantis... Meu peito sorri com o estalar de dedos ao ouvir uma canção de infância. Ou o bater de palmas sincronicamente colocadas pelos que exultam uma ópera. Não temo o amanhã, não hoje! Hoje quero apenas me vestir de ingenuidade e sorrir ao deleite do vento nos meus cabelos... E perceber a felicidade nos mais extensos detalhes do dia. Quero abraçar árvores sem ligar para o deboche alheio. Quero ver desenhos nas nuvens e fechar os olhos ao fazer uma prece pelos que amo. Quero ser sempre o que tanto me ensinou minha mãe: Um coração sempre pronto a amar e amar!!! 

A Cicatriz

Corte leve, raso, sem muito dano.
Cortes profundos, rasgados, abertos.
Figuras distorcidas, emendas, borrões
Súplica, dor, medo.
Através do espelho vejo um eu embaçado
Cheio de fragmentos costurados com desleixo
Uma boneca de pano feita sem molde e parco enchimento.
Um manejo de sub-vidas mal vestidas.
Trapo humano, um ser disforme
Passei na aula de corte e costura da alma,
Mas só cosi o ego alheio,
De mim, nada mais que retalhos e retratos em preto e branco
Uma marca de nascença, uma unção com bálsamo.
Álcool pra sanar a voz, e quem sabe fechar as feridas
Carne trêmula, peito em chama.
E de sobremesa um amor perfeito despetalado.
Entre os botões e agulhas de minha vida,
Fiz tapete de tramas e desgraças.
A linha passa serelepe marcando minha pele,
Chamo de bordados, rendas, minha vida desenhada
do que os outros chamam cicatrizes.

Adriana Holanda Tavares

O Cadáver

Aos meus, teus, ante-passados

Nas profundezas de minha alma aflita encontrei o tão esperado refúgio dos que dormem. E nas contas gastas do terço de minha mãe eu aprendi o sentido da fé. E tal como freira cativa à não liberdade meu peito abriu-se para o novo. Eu busquei mil vezes o veneno vivo das tuas palavras, e só encontrei ruídos abafados de poeira e sonhos distorcidos.
Quisera eu ter sucumbido como os que sucumbem diante da dor e da agonia, mas ainda estou aqui. E como folha seca que cai sem rumo, estou a te espreitar sorrateiro. O vento uiva suave, mais suave que faca cortando a carne branca e alva dos assassinatos domésticos. Não sei onde estou, sei apenas da maldita sentença que me cabe, vagar entre os pensamentos alheios, como se buscasse uma lembrança feliz e amena.
A rigidez de outrora sumiu, sou mole e escorregadio, tal como é viscosa a sua certeza. Tu foste em tempos perdidos a luz que me fazia sombra fresca. Antes o sol ofuscava o ser que fui, agora nada mais resta em minha perpetuidade, só negror e sujeira.
O frio toma conta de minha pele tal como a febre dos amantes toma-lhes o corpo em sussurros indecentes. E me deixo cair em tentações e devaneios. Tomastes tudo o que me fora roubado um dia, afinal o ciclo é este, e me resta agora a piedade dos que oram pelas sete almas do purgatório. Esperarei que por ventura uma prece errante me adentre a consciência e me poupe o trabalho de rogar por mim ou nós. Ah, o tempo passa lerdo e gargalha sem escrúpulos. Maldita és tu! Antes houvesse me despedaçado em grãos e semeado a terra, mas preferistes com os teus enleios e encantos me aprisionar cadáver nessa vasta vida!

Adriana Holanda Tavares

#PHPoemaday #Ocrush

O Crush

Ele saía da escola e corria como se sua vida dependesse daquilo. Cabelos desgrenhados, suado pelo sol de quase meio-dia, e o fardamento já todo amassado. Mas ele corria. E corria. E a cada passo largo dado era como se suas têmporas fossem explodir. Sonhava diariamente com o toque de saída barulhento que ecoava nos corredores da escola. Não podia perder nem um minuto.
Ele se punha desajeitado entre uma rua e outra e aguardava a saída dela. E todos os dias ele a esperava. Nunca trocara nenhum olhar com ela. Era proibido pela sua consciência adolescente. Mas a sede de vê-la passar ao meio-dia era maior que o peso de lhe dirigir algumas palavras.
E assim foi-se todo o primeiro trimestre do ano. Ele assistia às aulas, corria desvairado quando a mesma terminava e a esperava. Era bonito ver o alinhado de suas vestes, tão bem passadas. Cores tão sóbrias, e ele imaginava em seus devaneios como seriam seus cabelos. Ele nunca os viu. Tinha imagens secretas de que cor seriam. Quando chegava em casa punha-se a sonhar com o balanço que ela fazia ao penteá-los.
E como seria ela por debaixo da roupa tão recatada. E na sua inocência se sentia envergonhado por tais pensamentos. Ela era mais velha que ele, e nunca lhe dirigira um olhar sequer. Ela nem sabia de seu sentimento, nem deveria. Mas seu coração batia enervado cada vez que ela passava, no mesmo horário, pontualmente.
Durante os cinco dias da semana ele atrevia-se a desejar secretamente a mulher que não poderia ser dele, e no domingo ia à casa santa confessar seu imaginário amor pela freirinha.

Adriana Holanda Tavares

#PHPoemaweek #Toque


Algemas

E cada vez que eu ouço o toque,
Aquele toque...
Tão profundo, tão cadenciado...
Aquele ecoar de anos a fio, em teias, emergindo.
E o canto.
Sofrido, amuado.
Acompanhado de tantas histórias, nomes, pele...
O toque.
E ele embalava as noites com fogueira e sangue,
E dores, tantas e duradouras.
É suave ouvir o toque e ao mesmo tempo é rude.
Ele invoca fantasmas a tanto esquecidos e diariamente lembrados.
Na minha, sua, nossa identidade clandestina.
Toque agora aquele tilintar, e me toque de leve.
Não encoste, não precisa!
O toque traz ardência e suor,
E ecoa nos porões antigos e nos celeiros
E serve aos meus antepassados como brado livre
Sem liberdade alguma.
Que aos muitos ficou como lembrança bela de uma ácida verdade:
Toque o tim din dom, tin dim dom dom
Arcos e alvos sem altivez, buscando a cor.
Linda cor! Minha cor! Sua cor!
Cor-agem! As cores agem submersas de memórias.
E no gingado dessa roda, a capoeira levanta pó e orgulho.
Cantando silenciosamente um presente de outrora:
"Não bate no mininu que o mininu inda cresce...
Quem bate lembra, e quem apanha nunca esquece..."
Cada vez que eu ouço...

Adriana H. Tavares

#PHPoemaweek - Talo


A virgem



Quero tudo, o que houver, o limite e o limiar

da cachaça seca e quente, que aquiesce meu âmago.
E das bocas impuras quero o talo, o espasmo, a propulsão.
A saliva que alivia a garganta em sucção.
Proponho uma troca, ninguém ganha, tampouco perde.
Prós e contras entre danças, de alvos negros e sutis.
Quero um gole dessa trégua, dessa míngua salutar.
Quem do doce prova o amargo sempre busca o mesmo gosto,
e sedento lambe os dedos, nós desata, e deságua sem parar.
Se você topa tal proposta sai impune das más línguas, mas imundo de saudade.
Volta um dia à casa torta, sem porta e sem cadeados, sem trancas e portão, deixa aberto o caminho, e embriagado e turvo, vem desejar um vão.
Abre as castas já maduras e como castanha madura engole cada sortudo com casca, talo e tudo.


Adriana H. Tavares

Cala-te...
Calo...
E em cada calo pisado, ferido, machucado, uma carne sangra em alma. Calem-se os calejados dedos e lábios. Sejam silêncio até que a noite volte.
E no calor de teus vazios, as horas possam abrasar-nos.
Cálice...
Um amargo sabor derramado, uma calamidade avisada aos quatro cantos. 
Em cada pétala norteada da rosa dos ventos, uma bolha em viva pele.
Sem menos, sem mais, apenas calem as cálidas manhãs.
E um dia, no despertar das bocas e bandeiras levantadas, encontremos o remédio para dores tão profundas.
E nunca mais calos, calor e silêncio.
Tudo será brado!


Adriana H. Tavares