A Cicatriz

Corte leve, raso, sem muito dano.
Cortes profundos, rasgados, abertos.
Figuras distorcidas, emendas, borrões
Súplica, dor, medo.
Através do espelho vejo um eu embaçado
Cheio de fragmentos costurados com desleixo
Uma boneca de pano feita sem molde e parco enchimento.
Um manejo de sub-vidas mal vestidas.
Trapo humano, um ser disforme
Passei na aula de corte e costura da alma,
Mas só cosi o ego alheio,
De mim, nada mais que retalhos e retratos em preto e branco
Uma marca de nascença, uma unção com bálsamo.
Álcool pra sanar a voz, e quem sabe fechar as feridas
Carne trêmula, peito em chama.
E de sobremesa um amor perfeito despetalado.
Entre os botões e agulhas de minha vida,
Fiz tapete de tramas e desgraças.
A linha passa serelepe marcando minha pele,
Chamo de bordados, rendas, minha vida desenhada
do que os outros chamam cicatrizes.

Adriana Holanda Tavares

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