O Cadáver

Aos meus, teus, ante-passados

Nas profundezas de minha alma aflita encontrei o tão esperado refúgio dos que dormem. E nas contas gastas do terço de minha mãe eu aprendi o sentido da fé. E tal como freira cativa à não liberdade meu peito abriu-se para o novo. Eu busquei mil vezes o veneno vivo das tuas palavras, e só encontrei ruídos abafados de poeira e sonhos distorcidos.
Quisera eu ter sucumbido como os que sucumbem diante da dor e da agonia, mas ainda estou aqui. E como folha seca que cai sem rumo, estou a te espreitar sorrateiro. O vento uiva suave, mais suave que faca cortando a carne branca e alva dos assassinatos domésticos. Não sei onde estou, sei apenas da maldita sentença que me cabe, vagar entre os pensamentos alheios, como se buscasse uma lembrança feliz e amena.
A rigidez de outrora sumiu, sou mole e escorregadio, tal como é viscosa a sua certeza. Tu foste em tempos perdidos a luz que me fazia sombra fresca. Antes o sol ofuscava o ser que fui, agora nada mais resta em minha perpetuidade, só negror e sujeira.
O frio toma conta de minha pele tal como a febre dos amantes toma-lhes o corpo em sussurros indecentes. E me deixo cair em tentações e devaneios. Tomastes tudo o que me fora roubado um dia, afinal o ciclo é este, e me resta agora a piedade dos que oram pelas sete almas do purgatório. Esperarei que por ventura uma prece errante me adentre a consciência e me poupe o trabalho de rogar por mim ou nós. Ah, o tempo passa lerdo e gargalha sem escrúpulos. Maldita és tu! Antes houvesse me despedaçado em grãos e semeado a terra, mas preferistes com os teus enleios e encantos me aprisionar cadáver nessa vasta vida!

Adriana Holanda Tavares

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