A Cicatriz

Corte leve, raso, sem muito dano.
Cortes profundos, rasgados, abertos.
Figuras distorcidas, emendas, borrões
Súplica, dor, medo.
Através do espelho vejo um eu embaçado
Cheio de fragmentos costurados com desleixo
Uma boneca de pano feita sem molde e parco enchimento.
Um manejo de sub-vidas mal vestidas.
Trapo humano, um ser disforme
Passei na aula de corte e costura da alma,
Mas só cosi o ego alheio,
De mim, nada mais que retalhos e retratos em preto e branco
Uma marca de nascença, uma unção com bálsamo.
Álcool pra sanar a voz, e quem sabe fechar as feridas
Carne trêmula, peito em chama.
E de sobremesa um amor perfeito despetalado.
Entre os botões e agulhas de minha vida,
Fiz tapete de tramas e desgraças.
A linha passa serelepe marcando minha pele,
Chamo de bordados, rendas, minha vida desenhada
do que os outros chamam cicatrizes.

Adriana Holanda Tavares

O Cadáver

Aos meus, teus, ante-passados

Nas profundezas de minha alma aflita encontrei o tão esperado refúgio dos que dormem. E nas contas gastas do terço de minha mãe eu aprendi o sentido da fé. E tal como freira cativa à não liberdade meu peito abriu-se para o novo. Eu busquei mil vezes o veneno vivo das tuas palavras, e só encontrei ruídos abafados de poeira e sonhos distorcidos.
Quisera eu ter sucumbido como os que sucumbem diante da dor e da agonia, mas ainda estou aqui. E como folha seca que cai sem rumo, estou a te espreitar sorrateiro. O vento uiva suave, mais suave que faca cortando a carne branca e alva dos assassinatos domésticos. Não sei onde estou, sei apenas da maldita sentença que me cabe, vagar entre os pensamentos alheios, como se buscasse uma lembrança feliz e amena.
A rigidez de outrora sumiu, sou mole e escorregadio, tal como é viscosa a sua certeza. Tu foste em tempos perdidos a luz que me fazia sombra fresca. Antes o sol ofuscava o ser que fui, agora nada mais resta em minha perpetuidade, só negror e sujeira.
O frio toma conta de minha pele tal como a febre dos amantes toma-lhes o corpo em sussurros indecentes. E me deixo cair em tentações e devaneios. Tomastes tudo o que me fora roubado um dia, afinal o ciclo é este, e me resta agora a piedade dos que oram pelas sete almas do purgatório. Esperarei que por ventura uma prece errante me adentre a consciência e me poupe o trabalho de rogar por mim ou nós. Ah, o tempo passa lerdo e gargalha sem escrúpulos. Maldita és tu! Antes houvesse me despedaçado em grãos e semeado a terra, mas preferistes com os teus enleios e encantos me aprisionar cadáver nessa vasta vida!

Adriana Holanda Tavares

#PHPoemaday #Ocrush

O Crush

Ele saía da escola e corria como se sua vida dependesse daquilo. Cabelos desgrenhados, suado pelo sol de quase meio-dia, e o fardamento já todo amassado. Mas ele corria. E corria. E a cada passo largo dado era como se suas têmporas fossem explodir. Sonhava diariamente com o toque de saída barulhento que ecoava nos corredores da escola. Não podia perder nem um minuto.
Ele se punha desajeitado entre uma rua e outra e aguardava a saída dela. E todos os dias ele a esperava. Nunca trocara nenhum olhar com ela. Era proibido pela sua consciência adolescente. Mas a sede de vê-la passar ao meio-dia era maior que o peso de lhe dirigir algumas palavras.
E assim foi-se todo o primeiro trimestre do ano. Ele assistia às aulas, corria desvairado quando a mesma terminava e a esperava. Era bonito ver o alinhado de suas vestes, tão bem passadas. Cores tão sóbrias, e ele imaginava em seus devaneios como seriam seus cabelos. Ele nunca os viu. Tinha imagens secretas de que cor seriam. Quando chegava em casa punha-se a sonhar com o balanço que ela fazia ao penteá-los.
E como seria ela por debaixo da roupa tão recatada. E na sua inocência se sentia envergonhado por tais pensamentos. Ela era mais velha que ele, e nunca lhe dirigira um olhar sequer. Ela nem sabia de seu sentimento, nem deveria. Mas seu coração batia enervado cada vez que ela passava, no mesmo horário, pontualmente.
Durante os cinco dias da semana ele atrevia-se a desejar secretamente a mulher que não poderia ser dele, e no domingo ia à casa santa confessar seu imaginário amor pela freirinha.

Adriana Holanda Tavares