#PHPoemaweek #Toque


Algemas

E cada vez que eu ouço o toque,
Aquele toque...
Tão profundo, tão cadenciado...
Aquele ecoar de anos a fio, em teias, emergindo.
E o canto.
Sofrido, amuado.
Acompanhado de tantas histórias, nomes, pele...
O toque.
E ele embalava as noites com fogueira e sangue,
E dores, tantas e duradouras.
É suave ouvir o toque e ao mesmo tempo é rude.
Ele invoca fantasmas a tanto esquecidos e diariamente lembrados.
Na minha, sua, nossa identidade clandestina.
Toque agora aquele tilintar, e me toque de leve.
Não encoste, não precisa!
O toque traz ardência e suor,
E ecoa nos porões antigos e nos celeiros
E serve aos meus antepassados como brado livre
Sem liberdade alguma.
Que aos muitos ficou como lembrança bela de uma ácida verdade:
Toque o tim din dom, tin dim dom dom
Arcos e alvos sem altivez, buscando a cor.
Linda cor! Minha cor! Sua cor!
Cor-agem! As cores agem submersas de memórias.
E no gingado dessa roda, a capoeira levanta pó e orgulho.
Cantando silenciosamente um presente de outrora:
"Não bate no mininu que o mininu inda cresce...
Quem bate lembra, e quem apanha nunca esquece..."
Cada vez que eu ouço...

Adriana H. Tavares