#PHPoemaday - O Assédio

O menino que aprendeu a calar

Sofreu assédio desde muito pequeno, quando seu padrasto o molestava com mãos e línguas intrometidas. E era sempre alertado que "aquilo" era de direito dele, era uma questão de respeito, era um agradecimento por ele cuidar daquele menino que nem seu filho era. Era uma grande honra ser dele. E o menino calava. 
O assédio e a dor nunca cessou; quando foi à escola, sofreu assédio pelos coleguinhas que eram maiores que ele, e o obrigavam a dar seu lanche, seu dinheiro e fazer suas tarefas. E calava. 
As palavras não seriam tantas e teriam a força necessária para dizer o que aquele menino sentia. Ninguém desconfiava, e ele cada dia mais silenciosamente neutro. 
Na adolescência o assédio se tornou quase um sobrenome que carregava, era assediado pelas meninas que o achavam bonito, e ele; apático sentia que aqueles olhares lhe queimavam a pele como ácido. E calava. 
Era a única coisa que sabia fazer: fechar os lábios e aceitar o que lhe traziam de cerco e prisão. Era assediado no primeiro emprego, para que trabalhasse mais do que devia e ele achando natural, nada falava.
E mudou de cargo diversas vezes, pois na sua pacificidade de aceitar os assédios que lhe eram ofertados, ele trocava seu sexo por melhores salários. Ele, o menino que aprendeu a calar não sabia fazer outra coisa, e achava normal. Nunca sentiu prazer algum. 
E na sua calada solidão lembrava do padrasto. 
E cheio de um prazer mórbido sentia saudades dele. 
Sentia saudades da época que ele o violava e o colocava para dormir com a música de ninar (o único som que ele sabia cantar).
Naqueles momentos a voz daquele homem o acalmava, era como se ele fosse a voz do menino que aprendeu a calar.

Adriana H. Tavares

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