#PHPoemaday - O Incenso

A Leveza e a renda

Acordou cedo, lavou-se cautelosamente, com sabão de coco, retirando todas as impurezas de seu corpo, cortou as unhas e se lambuzou de óleo de Benjoim, um cheiro forte em sua pele. 
Penteou os cabelos e os perfumou com essência de Jasmim, ajustou-os numa trança milimetricamente disposta no centro da cabeça deixando-se cair pelo ombro direito. 
Prendeu com um pedaço de gaze. Vestiu-se de branco, apenas branco. Não poderia ser areia, creme ou marfim. Branco. Como deveriam ser brancos os seus pensamentos naquele dia. 
Escovou os dentes com uma pasta acre de ervas, a natureza deveria estar presente em cada aroma. Em cada parte de seu esguio corpo. Esfregou as mãos impaciente enquanto esperava que lhe desenhassem as rendas e trilhas Mehndi. 
Já havia imaginado como ficaria com aqueles desenhos em seus pés e mãos, depois de assustar-se com as dificuldades apontadas pelo astrólogo, mas confiou em cada linha bem traçada para equilibrar as possíveis desventuras. 
Esperou ansiosa cada minuto e enquanto imaginava sua pele desvirginada aqueceu água colhida na folha de bananeira e fez um chá de Camomila fresca. Sem açúcar, seu mel já era o bastante.
Deveria manter-se limpa de qualquer coisa. Mergulhou os pés numa bacia de ágata branca com pétalas de rosas e acendeu um incenso de Patchuli. Esse incenso havia sido feito artesanalmente por ela na noite anterior. 
Ouvia um Mantra leve e repetia baixinho. Sorria, aquela combinação de sensações lhe trazia a paz necessária para atravessar a ponte de juncos e bambus que a aguardavam no leito do rio. 
Seria uma cerimônia simples e abençoada pelos seres naturais. Nenhuma jóia em seu corpo, receberia seu ouro ao enlaçar sua alma em matrimônio. O incenso exalava felicidade e ternura. 
Tremia. 
A tardinha começava a cair e o perfume almiscarado embalava seus pensamentos. Depois de ornada levantou-se e caminhou de pés descalços rumo à seu destino. 
Uma renda fina e branca encobria-lhe o rosto como um véu e grinalda. Seus passos eram cadenciados e leves. Sua alma era leve, sua vontade era leve, e leve eram suas intenções. 
Tudo convergia para a sublimação e leveza. Crianças depositavam bolhas de sabão que leves alçavam vôo. 
Leve, livre, leve. 
E levada por seus devaneios infantis, disse um pesado NÃO!

Adriana H. Tavares

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