#PHPoemaday - Metonímia 

A moça da última hora.


Vários pés passavam apressados, e enquanto os observava tomava todo o copo de gim. Sua vista embaçava, e gostava da sensação que o álcool lhe trazia. 
Estava como um vaga-lume a buscar as luzes que estavam apagando-se pelo nascer do sol. E passava a mão pelos fios dourados em sua cabeça e os alinhava com cautela. Enquanto pensava se ia para casa, escutava Chico, e a cada rima feita com cuidado acreditara que o mesmo cantava apenas para ele. 
Tocava no bar mal frequentado: Apesar de Você, e enquanto ouvia ele tropeçava na camurça manchada e pedia a saideira. Segurou com força o vidro e tomou de uma só vez aquele fel. Envenenava-se a cada gole, mas gostava. 
Não havia mais porque voltar nem por quem. 
Mas esperava ela. A moça, mulher, anciã que chega um dia para fechar os olhos de todos. 
Sua camisa suja de Heinz e farelos de queijo exalavam um odor misturado de bebida, Marlboro e Charisma. Não tinha sequer um Halls para disfarçar o hálito. Tomou mais uma e decidiu que era hora de voltar. 
Jogou cinco gotas de suor em cima do balcão e saiu. 
Sorria. 
Ajeitou a calça, sacudiu as mãos e tateou até chegar no que um dia fora seu lar. Entrou e deixou a porta aberta. Quem quisesse entrar seria bem vindo. 
Inclusive ela. 

Adriana H. Tavares

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