#PHPoemaday - O Plural Majestático



João sem rei na barriga.

Eu falava no plural e achava que falava apenas de mim, não sabia a quem tantos outros estava me dirigindo. E meus nós eram eus, e desatavam em torrentes de laços apertados. Eu falava de tantas multifacetas e achava que era de mim que estava a falar. E porque nunca me corrigiram continuei a falar:
- Nós vem de longe, nós tem fome e sede.
Alguns riam e eu nada entendia. Apenas achei que era porque eu vinha de longe. Era matuto. Abobalhado.
Aprendi com muita dificuldade a escrita e oratória delineada, definida e ao longo de dezoito anos deixei para trás a carga de erros gramaticalmente inoportunos e cheios de paradigmas. 
Eu falava nós, eu dizia mim, e achava que estava falando como tantos outros Joãos sem rumo que aprenderam depois de adultos como se escreve e lê.
- Nós quer encontrar com o nosso eu perdido nas cartilhas do ABC.
E eles riam. Acho que a ignorância não era tão somente minha. Era deles. De tantos eles. Estudar me deu o "ganho" de saber que antes o plural majestático dos meus nós era também o plural da modéstia (essa cabe bem melhor no caso de pessoas que; como eu não sabiam como falar).
Modéstias à parte, a parte que me importa é ser eu nos nós que ainda deslizo em frases ditas às pressas aos meus conterrâneos. 
Estudar me deu a certeza de que Majestático é o ponto mais estático que um homem com o Rei na barriga tem quando ri do outro.
E vez por outra me pego falando nós em linhas emaranhadas de saudades dos meus eus!

Adriana H. Tavares

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