#PHPoemaday - Um Tema Passado

Antes, durante, de-ops!

Não, não me chamo Alice, mas acredito de que alguma forma que não compreendo ainda, eu tenha caído numa toca. Não sei se era um coelho que eu perseguia, acho se não me falha a memória, busquei o Eu majestático
E o que encontrei foi um auto retrato borrado, sujo e maltrapilho. Ah, peço desculpas a quem porventura e desavisado acabar por se deparar com esse meu desabafo em linhas mal escritas. Mas hoje, o céu está estranho, eu estou estranha, e nas minhas entranhas um oco me invade e perturba o amanhã. 
O céu de hoje avermelhou-se em lágrimas piedosas. As margaridas do jardim alheio me xingam de patética, e como a lagarta velha e aborrecida do Lewis me pergunta quem eu sou. Aqui estou longe de qualquer espelho, estou invadindo espaços e fragmentos de um ser que já fui outrora. Desde que acordei hoje - ou seria ontem?
Olhei pela sua janela e me percebi intacta. Como se nada que aprendi estivesse aqui comigo. Caminho por entre sonhos enredados de ladrilhos amarelos, como um personagem literário, e sei que uma hora ou outra irei voltar dessa insossa realidade. 
Sou uma Alicidriana sem graça, sem chá, sem chapeleiro, mas com cartas na manga para assaltar a qualquer momento seus sonhos despedaçados. Tenha cuidado! Eu bem que avisei! Posso devassar sua paixão mais sincera e pura e arrancar segredos inconfessáveis.
Corri feito uma tola; nada, nenhuma seta a me apontar os caminhos, apenas os erros cometidos. Você ainda está aí? Espero que não me deixes só, preciso da melancolia azul que a tua santidade me imprime. 
Falei Santidade? Desculpe, as palavras perdem-se fáceis nesse país da mar-ervilhas em que me escondi. 
Deve ser o efeito da infância que me chama na velhice dos bons conselhos. 
Queria ter dito sanidade. Santa idade, não sei! 
Se pudesse te buscaria agora, mergulharia sedenta nesse sertão de tua língua. E desvelaria segredos, músicas e medos. Remexo as bolsos em busca do molho de chaves que me levará de volta. 
Mas algo dentro de minha cabeça me avisa que não devo voltar. Minha arteira artéria ar teria, mas nada tem. Só silêncio, só silencio, e quando o barulho interno me denuncia. 
Eis que surge a rainha vermelha: sábia, será que ela sabia que o sabiá sabia assobiar? Cortem a cabeça! Vinho me sobe a garganta, e ácido me embriaga. 
Quero você agora. A droga já não me faz nenhum efeito. Apenas fumaça, fogo e um turbilhão de estilhaços. E quando me lembro, nem sei se é tudo invenção, mas o Eu majestático me avisou: nós nunca será bem quisto. 
Eu existo! Meu corpo agora treme de febre, um terremoto, uma tsunami, um navio sem capitão. E quem dera eu pudesse apenas dormir. Acordar, a cor dar a corda, um precipício lento, bem arquitetado, um circo. Como um amigo bem escreveu: "estou eu a mercê do tempo, catando folhas secas que caem como se buscassem o suicídio!"
Ah, Roberto, bem que você me leu nessas linhas e me compreendeu. Eu busco ainda mais! Não achando, me perco de mim. E encontro você. Dentro, cada vez mais profundo você se afunda na minha incoerência. 
Em decorrência dos fatos dê-se por vencido! 
Seus pecados vão muito além do que um corpinho escrito ME COMA! Com açúcar com café, com afeto, aquele feto feito às pressas no chão da cozinha. 
É, acho que estou irremediavelmente fadada à loucura. E a beleza disso tudo é saber que a morte anunciada com quinze badaladas de sinos, rezada nos pés do padre, de nada me aquiesce.
Quero Sartre, Dalai Lama, Buda, Montesquieu e todas as pessoas de nome difíceis aqui. Quem sabe, nessa mesa quadrada eu encontre a resposta para a diferença entre um corvo e uma escri... Ah, que seja! Cansei. Tudo isso são temas passados, de um branco e dourado reflexo teu. 
A mim cabe apenas, recitar poemas no dia do Adeus!


Adriana H. Tavares

#PHPoemaday - A Depressão

Dê pressão ao ar

Respira
Inspira, expira
e pira e suspira.
Respira, expira
explica, implica...

Expele, repele,
Explode, e pode.
Sacode a poeira e tosse...
E expira, inspira.
Resiste, insiste
Respira, inspira...

Expira e excede,
e cede, e percebe
Exala o cheiro
aquele suave odor...

Expira, inspira
Esgota o ar
Explora o pulmão,
cede à depressão
Inspira, Respira
e gira a roleta russa...

Expulsa o ar
Expira, espirra...
Inspira, escorre
E corre de encontro ao nada
Corre e cansa, 
e arfa...

Respira, e expira
O tempo já quase acabou
Inspira, respira
Expressa sua pressa e volta a suspirar...

Expira e cai!
Inspira e dói!
Respira e: Não!
Não deve voltar!
Ex pira
Inspira
sente que vai sufocar...

Expira
e pira!
É EX, não vai mais
Inspirar!

Adriana H. Tavares

#PHPoemaday - O Oco 

Gosto do toco e do oco

Gosto quando desce e sobe a tua mão na minha cintura, gosto do oco que sinto quando você não está. Gosto dessa cara desarrumada e embotada de soberba, gosto desse ar de quem sabe onde tocar. 
E depois, me fazer sussurrar...
Gosto quando molha tua língua em minha pele. Gosto quando o toco volta a incomodar. Gosto desse gozo assim frenético, gosto quando não quer mais parar.
E depois, me fazer, implorar...
Gosto do vazio que teu sexo causa ao meu, gosto da nervura interrompida pelo atrito. Gosto do abrigo que teu queixo me propõe. Gosto da medida imprecisa, gosto de saber no que vai dar.
E depois, me fazer, suportar...
Gosto quando me subjuga inteira, gosto quando me recusa o olhar, gosto quando puxa meus cabelos, gosto quando esquece quem eu sou. Gosto dessa falta de manejo, gosto desse membro suplantar...
E depois, me fazer gargalhar...
Gosto quando me chama de vadia, gosto da tua mão mais desmedida; suja, sem limite e vulgar. Gosto da pegada que não deixa marcas, gosto de cravar as unhas e rasgar.
E depois, me fazer, gritar...
Gosto dessa mordiscada abrupta e passageira, gosto da beleza provocada pela brisa quente e seca, gosto de ver tudo cicatrizar.
E depois, me fazer, machucar...
Gosto desse ciclo dependente, do ócio criativo onde me permito estar, gosto do mastro com que você me iça, gosto de ser bicho solto a serpentear.
E depois, me fazer, experimentar...
Gosto do cheiro que teu corpo exala, quando me possui na sala de estar, gosto do sabor amargo e fosco, da luz incandescente do teu balançar,
E depois, me fazer ofegar...
Gosto da impureza incestuosa, quando guarda o taco de bilhar, cada caçapa uma textura, bola sete ou nove vamos lá!
E depois, me fazer, esperar...
Gosto quando vem sem aviso prévio, me pega no cio e se sacia, gosto quando me permeia os parênteses, invade lentamente o meu hangar. Gosto quando o oco se preenche, de todo o ser que em você me falta. Como um quebra cabeças, onde você tira; põe e volta a tirar. 
E depois, me fazer, deleitar.
Meu oco sempre espera o seu toco. 
E depois, me fazer, descansar...

Adriana H. Tavares

#PHPoemaday - A Miscigenação

Comer, uma arte

Café com leite, 
Sempre um deleite
Queijo com goiabada, 
Alegria roubada,
Arroz com feijão,
Muita tentação.
A história fala de Miscigenação
e eu que não sei de nada,
só penso na panelada, rabada, feijoada. 
Quisera estar em dieta constante
E beber apenas o vil calmante
Gostosa amante,
Não importando onde ela nasceu
Saboreando apenas o Gineceu
Miscigenar, amar, lembrar do povo
Do negro antigo e do novo,
Do branco-amarelado-vermelho,
Que encaro todo dia no espelho.


Adriana H. Tavares

#PHPoemaday - O Tsunami

A cigana

Ela vem, balança seus cabelos no ar,
                        longos, crespos e rebeldes.
                                    Cachos desencaracolando
                                            pelos balanços e remelexos dela.
                                                                       ela vem, deslizando suas mãos,
                                                           cortando o espaço como manteiga.
                                     Sacode de forma abrupta sua saia
                        longa e rodada. É uma cigana,
              uma dama, uma estranha
 onda de movimentos efervescentes.
             E ela vem, como um vendaval,
                   olhos oblíquos e nada dissimulados.
                           Sabe bem onde alçar vôo e encontrar o alvo.
                                                      Seus cílios são flechas ondulantes
                                                             que quase soltam faíscas ao se tocarem.
                                                                                              Ela não sorri, não precisa,
                                                                                                          é a seriedade que carrega
                                                                                          em seu semblante que a faz mais
                                                                                 e mais inebriante.
                                                                  Ela vem, e eu desejei
                                                        que ela não viesse.
                             Porque me assusta cada movimento
                   que ela faz. E faz tão bem!
           E quando se aproxima
 seu corpo sacode em uma simetria
quase hipnótica.
       Ela lembra uma serpente
                 acasalando, silvando
                            e serpenteando em curvas
                                                  só se sabe
                                                         ser solta
                                                                  sem suor
                                                              só sangue
                                                          subindo
                                              saindo, com sal
                                          saliva.
E quando vejo ela chegou. E como uma onda de calor ardente me invade sem pedir licença. Me perco e só sei que a cigana me levou a identidade, o medo e o sono. Devastou todas as minhas crenças. Arrasou minha vida. Depois como Tsunami que tudo devora, acalmou.

Adriana H. Tavares

#PHPoemaday - O Incenso

A Leveza e a renda

Acordou cedo, lavou-se cautelosamente, com sabão de coco, retirando todas as impurezas de seu corpo, cortou as unhas e se lambuzou de óleo de Benjoim, um cheiro forte em sua pele. 
Penteou os cabelos e os perfumou com essência de Jasmim, ajustou-os numa trança milimetricamente disposta no centro da cabeça deixando-se cair pelo ombro direito. 
Prendeu com um pedaço de gaze. Vestiu-se de branco, apenas branco. Não poderia ser areia, creme ou marfim. Branco. Como deveriam ser brancos os seus pensamentos naquele dia. 
Escovou os dentes com uma pasta acre de ervas, a natureza deveria estar presente em cada aroma. Em cada parte de seu esguio corpo. Esfregou as mãos impaciente enquanto esperava que lhe desenhassem as rendas e trilhas Mehndi. 
Já havia imaginado como ficaria com aqueles desenhos em seus pés e mãos, depois de assustar-se com as dificuldades apontadas pelo astrólogo, mas confiou em cada linha bem traçada para equilibrar as possíveis desventuras. 
Esperou ansiosa cada minuto e enquanto imaginava sua pele desvirginada aqueceu água colhida na folha de bananeira e fez um chá de Camomila fresca. Sem açúcar, seu mel já era o bastante.
Deveria manter-se limpa de qualquer coisa. Mergulhou os pés numa bacia de ágata branca com pétalas de rosas e acendeu um incenso de Patchuli. Esse incenso havia sido feito artesanalmente por ela na noite anterior. 
Ouvia um Mantra leve e repetia baixinho. Sorria, aquela combinação de sensações lhe trazia a paz necessária para atravessar a ponte de juncos e bambus que a aguardavam no leito do rio. 
Seria uma cerimônia simples e abençoada pelos seres naturais. Nenhuma jóia em seu corpo, receberia seu ouro ao enlaçar sua alma em matrimônio. O incenso exalava felicidade e ternura. 
Tremia. 
A tardinha começava a cair e o perfume almiscarado embalava seus pensamentos. Depois de ornada levantou-se e caminhou de pés descalços rumo à seu destino. 
Uma renda fina e branca encobria-lhe o rosto como um véu e grinalda. Seus passos eram cadenciados e leves. Sua alma era leve, sua vontade era leve, e leve eram suas intenções. 
Tudo convergia para a sublimação e leveza. Crianças depositavam bolhas de sabão que leves alçavam vôo. 
Leve, livre, leve. 
E levada por seus devaneios infantis, disse um pesado NÃO!

Adriana H. Tavares

#PHPoemaday - O Sueco


köp 3 betala för 2



(Compre 3, pague 2)

Foi assim que conheci Melvin. Sueco, 32 anos e vendedor online de quinquilharias chinesas. Recebi como muitas outras pessoas emails na caixa de Spam. E sempre abri os meus com cautela. Era dessas propagandas esdrúxulas das que você nem entende o porque chegaram em seu correio eletrônico. Mas devido ao fato de eu ser completamente metido e enxerido abri a porcaria do email e traduzi da maneira simplória que pude. 
Diskret vibrator få 3 betala 2 stora befordran, nöje i alla dimensioner. Om du inte är nöjd får sina pengar tillbaka.
Era um convite no mínimo digno de se experimentar. Comprei dois micro vibradores em formato de obeliscos. E pra minha surpresa eles estavam com defeito. Escrevi direto ao Melvin. Ele, já residia em território brasileiro há tempos e resolveu que iria me ressarcir pessoalmente o prejuízo que tive de SEK 194,11. Trocamos emails por uma semana e chegamos num acordo. Ele iria me encontrar e avaliar o defeito em meus vibradores. Dependendo do que pudesse ser feito me restituiria o valor.
O que esperar? Produtos chineses, vendedor sueco meio enrolado, e eu, um brasileiro doido pra se enrolar emocionalmente. 
Nos encontramos e na negociação encontrei meu preço: Sueco-chino-brasileiro, hoje somos um par.
Se conselho fosse bom poderia dizer com certeza: nunca jogue um bofe na lixeira de um spam sem abrir antes!


Adriana H. Tavares

#PHPoemaday - A Tocha

Luz

Fechou os olhos, abriu-se e despiu-se ao mundo. 
Tapou a boca, engoliu seco e quente a saliva.
Encobriu o sexo, e virginou-se de lascívia.
Abafou o ouvido, silenciou de tudo em solidão sôfrega.
Ardia em labaredas as suas vontades, queimava em fogo brando seu mais solitário ser. Era fogo fátuo, as vezes fogo amarelo-avermelhado tendendo ao vinho. Era um facho de luz, ardendo diariamente, querendo queimar e pulverizar tudo o que passasse em sua frente. Era um incêndio "controlado".
Fechou o ouvido, e negou-se a ouvir o mundo.
Abafou o sexo, e gemeu em sons quase inaudíveis.
Encobriu a boca, e mordeu seus medos inquietos.
Tapou os olhos, e tal como uma tocha, queimou sem pressa.
Sem controle, sem definição. Cinzas, brasas e calor. 
Ardia. E sabia que a tocha interior que a mantinha viva precisava a cada dia de um novo corpo para se incinerar.

Adriana H. Tavares

#PHPoemaday - A Onça

Trocados

Dizem estudos que a onça, mamífero de porte médio vive aproximadamente de 10 a 20 anos. 
E eu trabalhador assalariado, de porte minúsculo perante a massa cinzenta de cimento armado, posso ter uma vida in-útil de até 85 anos. 
Acho extremamente improvável que o ciclo da vida esteja equilibrado. 
Aliás nem eu, drogado pelos vícios de mentiras e álcool destinado (ops, destilado) viverei esse tempo todo, como as onças pintadas em minha carteira viverão dois dias sem antes cair em mãos dos caçadores capitalistas. 
Já tive vontade de soltá-las; as onças. Mas de tanto passar de mão em mão, acabaram por sujar as carteiras-assinadas e assassinadas da família tradicional brasileira. 
As onças que caço diariamente, mal dão para pagar o aluguel. Coitadas. 
Caça virou caçador e assim este valor eu te dou.
Troca aqui minha suja onça, por dez araras bizarras.

Adriana H. Tavares

#PHPoemaday - O Quarto de Motel

Coleção

Gosta de sexo à tardinha, quando o calor é natural pelo sol que começa a se deitar. Gosta do cheiro suado, do toque violento e do salgado da pele. 
Gosta de todo o ritual de colocar meia-luz, despir as peças parcas e gastas de lingerie mal combinada, de fazer dancinha erótica enquanto o parceiro espera ansioso. Gosta de ter relações, transar, chupar, morder, arranhar. 
Gosta do desejo incauto e do convite in-esperado. Espera com volúpia cada vez que lhe deleitam a ideia de ir à um Motel. Não importa qual, mas tem de ser num motel. Em casa não! 
Gosta do cheiro de lençóis lavados com sabão barato ou dos mais elaborados amaciantes de lavanda. Gosta da decoração brega e da requintada, levando-a a questionar se teria um quarto parecido com aquele. Definitivamente não! 
Gosta da forma geométrica redonda das camas e ri maliciosamente quando pensa em como deve dar trabalho passar aqueles lençóis. Gosta da música e até dos filmes pornôs que passam enquanto se alimenta de prazer. 
Gosta de contar bolhas de sabão na banheira que outros já devem ter passado. Arrisco até dizer que gosta da janelinha discreta por onde colocam a conta no final do ato. 
Gosta dos nomes de cada Motel que já passou, alguns fim de carreira lhe trouxeram boas lembranças: Vem que tem, Delírius, C q sabe, Prazeres, Momentus, Night in blue. Gosta da criatividade dos quartos temáticos, das cores berrantes, e se sente um personagem em cada um. 
Gosta de ser sexualmente diversificada. As vezes com um parceiro ou dois, ambos os sexos, o que importa é acumular lembranças e guardar seus souvenires. 
Gosta de experimentar acessórios, de texturas e posições. Gosta de sexo simples e rápido, e do coito nunca interrompido. Gosta de tudo o que sua digital consegue marcar em pêlo. 
Mas nada lhe dá mais prazer que a sua coleção. Gosta de chegar em casa e extasiada guardar na sua caixinha dourada mais um exemplar de sabonete de Motel. 
E quase chega sentir um orgasmo múltiplo quando exala aquelas fragrâncias peculiares. Sua coleção. Só sua!


Adriana H. Tavares

#PHPoemaday - Desinência Verbal

Rosa dos ventos

Ando
Endo
Indo
Ando lendo e indo e vindo, 
sem passados nem presentes, 
Gerando gerúndios e particípios
Nem participo dessa cantiga de roda.
Quero mais é ser livre, sem perfeição de pretéritos.
Sem pretensão temporal.
Quero ir sem ter saído, e ficar sem ter partido
Esse finito coração!

Adriana H. Tavares




#PHPoemaday - O Assédio

O menino que aprendeu a calar

Sofreu assédio desde muito pequeno, quando seu padrasto o molestava com mãos e línguas intrometidas. E era sempre alertado que "aquilo" era de direito dele, era uma questão de respeito, era um agradecimento por ele cuidar daquele menino que nem seu filho era. Era uma grande honra ser dele. E o menino calava. 
O assédio e a dor nunca cessou; quando foi à escola, sofreu assédio pelos coleguinhas que eram maiores que ele, e o obrigavam a dar seu lanche, seu dinheiro e fazer suas tarefas. E calava. 
As palavras não seriam tantas e teriam a força necessária para dizer o que aquele menino sentia. Ninguém desconfiava, e ele cada dia mais silenciosamente neutro. 
Na adolescência o assédio se tornou quase um sobrenome que carregava, era assediado pelas meninas que o achavam bonito, e ele; apático sentia que aqueles olhares lhe queimavam a pele como ácido. E calava. 
Era a única coisa que sabia fazer: fechar os lábios e aceitar o que lhe traziam de cerco e prisão. Era assediado no primeiro emprego, para que trabalhasse mais do que devia e ele achando natural, nada falava.
E mudou de cargo diversas vezes, pois na sua pacificidade de aceitar os assédios que lhe eram ofertados, ele trocava seu sexo por melhores salários. Ele, o menino que aprendeu a calar não sabia fazer outra coisa, e achava normal. Nunca sentiu prazer algum. 
E na sua calada solidão lembrava do padrasto. 
E cheio de um prazer mórbido sentia saudades dele. 
Sentia saudades da época que ele o violava e o colocava para dormir com a música de ninar (o único som que ele sabia cantar).
Naqueles momentos a voz daquele homem o acalmava, era como se ele fosse a voz do menino que aprendeu a calar.

Adriana H. Tavares

#PHPoemaday - A Prostituta

Identidade!

Sou para alguns; fruta, 
azeda, doce, carnuda, um caroço, um sabor...
Para muitos substituta,
tapa buraco, companhia, afago, sem rosto...
Reboco, rodada, mercadoria sem valor, 
mulher astuta,
Vendaval, tempestade, vício, prazer.
Senhora absoluta,
de toda hora e preço qualquer;
sem vontade, sem freios...
Piranha enxuta.
Novinha, meia idade, ninfeta, cabocla, sem nome, suja; pura...
Sem conduta,
faz tudo; obedece, manda pouco, sem pudor...
rapariga fajuta.
Na solidão de quem ama, sou aquela que transmuta
Ideal, ilusão, dama de par, meia arrastão, batom vermelho e lascívia...
Força bruta.
Sustentando o mundo entre as pernas e o quadril,
Boca larga, língua afiada e resoluta...
e quem me recruta - são tantos-
entram na disputa
de hora marcada,
Sou de muitos e de ninguém, 
de quem paga mais e se lambuza,
do mel que eu sou.
E no findar do turno, me lavo, me asseio,
e anseio que venham de novo me chamar:
Te apressa!
Mundana, vadia, vaca, vendida, biscate, meretriz, puta!
Pros-ti-tu-ta!

Bebo cada nome como se fosse cicuta!

Adriana H. Tavares

#PHPoemaday - O Dó Maior

Acorde!

Tenho dó;
Da dor menor 
que você planta...
Sinto dor, 
Do dó maior 
que você canta...
É de doer a dó
que eu te dôo.
E eu te dou;
a dor de ser tão só...
Então seguimos;
Dó-loridos
e envolvidos
nesse "acorde"
Incidental,
Acidental,
Instrumental,
proporcional
e sem final...

Adriana H. Tavares


#PHPoemaday - O Pianista

N-ésima sinfonia.

Eram dedos ávidos,
Longos, ossudos,
Digitais quase imperceptíveis,
Pele macia e quase aveludada.
Eram mãos hábeis,
palma curvilínea e sempre a postos.
E trabalhava cada nota cuidadosamente.
Dançava ora lento ora frenético.
Era uma melodia que mudava constantemente.
Um dia grave e ritmada,
Noutro aguda e pausada.
Aprendera a dedilhar no instinto,
Autodidata, autossuficiente.
Cada tecla ressoava o que ele sentia.
Dó-lorosamente vivo,
Ré-conectado,
Mi-nusciosamente louco,
Fá-naticamente envolvido
Sol-idário no êxtase
Lá-scivo,
Si-metricamente refeito.
O piano era a sua escola,
A partitura seu professor
E a música eram os gemidos inauditos
secos, porosos, abafados,
que harmonizavam quando ele as tocava.

Adriana H. Tavares

#PHPoemaday - Metonímia 

A moça da última hora.


Vários pés passavam apressados, e enquanto os observava tomava todo o copo de gim. Sua vista embaçava, e gostava da sensação que o álcool lhe trazia. 
Estava como um vaga-lume a buscar as luzes que estavam apagando-se pelo nascer do sol. E passava a mão pelos fios dourados em sua cabeça e os alinhava com cautela. Enquanto pensava se ia para casa, escutava Chico, e a cada rima feita com cuidado acreditara que o mesmo cantava apenas para ele. 
Tocava no bar mal frequentado: Apesar de Você, e enquanto ouvia ele tropeçava na camurça manchada e pedia a saideira. Segurou com força o vidro e tomou de uma só vez aquele fel. Envenenava-se a cada gole, mas gostava. 
Não havia mais porque voltar nem por quem. 
Mas esperava ela. A moça, mulher, anciã que chega um dia para fechar os olhos de todos. 
Sua camisa suja de Heinz e farelos de queijo exalavam um odor misturado de bebida, Marlboro e Charisma. Não tinha sequer um Halls para disfarçar o hálito. Tomou mais uma e decidiu que era hora de voltar. 
Jogou cinco gotas de suor em cima do balcão e saiu. 
Sorria. 
Ajeitou a calça, sacudiu as mãos e tateou até chegar no que um dia fora seu lar. Entrou e deixou a porta aberta. Quem quisesse entrar seria bem vindo. 
Inclusive ela. 

Adriana H. Tavares

#PHPoemaday - O Plural Majestático



João sem rei na barriga.

Eu falava no plural e achava que falava apenas de mim, não sabia a quem tantos outros estava me dirigindo. E meus nós eram eus, e desatavam em torrentes de laços apertados. Eu falava de tantas multifacetas e achava que era de mim que estava a falar. E porque nunca me corrigiram continuei a falar:
- Nós vem de longe, nós tem fome e sede.
Alguns riam e eu nada entendia. Apenas achei que era porque eu vinha de longe. Era matuto. Abobalhado.
Aprendi com muita dificuldade a escrita e oratória delineada, definida e ao longo de dezoito anos deixei para trás a carga de erros gramaticalmente inoportunos e cheios de paradigmas. 
Eu falava nós, eu dizia mim, e achava que estava falando como tantos outros Joãos sem rumo que aprenderam depois de adultos como se escreve e lê.
- Nós quer encontrar com o nosso eu perdido nas cartilhas do ABC.
E eles riam. Acho que a ignorância não era tão somente minha. Era deles. De tantos eles. Estudar me deu o "ganho" de saber que antes o plural majestático dos meus nós era também o plural da modéstia (essa cabe bem melhor no caso de pessoas que; como eu não sabiam como falar).
Modéstias à parte, a parte que me importa é ser eu nos nós que ainda deslizo em frases ditas às pressas aos meus conterrâneos. 
Estudar me deu a certeza de que Majestático é o ponto mais estático que um homem com o Rei na barriga tem quando ri do outro.
E vez por outra me pego falando nós em linhas emaranhadas de saudades dos meus eus!

Adriana H. Tavares

#PHPoemaday - A apatia 


E o Mundo vem.

O Mundo veio, e tal como sua grandiosidade ele chegou.
E bateu, machucou, violou, espancou, feriu, arranhou, mordeu, agrediu, gargalhou, marcou com ferro e fogo, esmurrou, chafurdou, despedaçou, golpeou, açoitou, fustigou...
E ele assustado, fugiu..
E gritou, e chorou e sofreu...
Nova cidade, nova roupa, novo corte de cabelo bagunçado, e identidade cheirando a papel recém comprado. Tudo novo.
E na novidade o velho Mundo o encontrou...
E sorriu, e triturou, escarnou, e bateu; e como um martelo socou, soçobrou, lesionou, pisou, magoou, deprimiu, melindrou, molestou, mastigou, retalhou, e fincou unhas e garras na carne antes já conhecida. 
Mais uma vez fugira... Na ânsia de sumir, outras mil identidades, nomes e cidades...
E como já esperava o Mundo o perseguiu. E sentiu o cheiro doce dele, e o caçou como presa fresca e frágil.
E o Mundo cheio de prazer o encontrou mais uma vez.
E o despedaçou, puniu, lesionou, prejudicou, ofendeu, atingiu, lacerou, esfolou, contundiu, atormentou, fraturou, triturou, fragmentou, arrebentou...
Dessa vez, cansado de mudar, ele apenas aceitou.
E esperou que o Mundo voltasse cheio de ódio e volúpia. 
Não lutou, não mudou cabelos nem nomes, nem tampouco de cidade. Apenas esperou o Mundo vir.
E o Mundo chegou arfando ira, e esperou que ao bater, machucar, fincar e violentar ele sofresse.
O Mundo procurou o novo medo estampado em seu rosto, e a velha covardia, mas parou diante do que achara...
Nada havia, nada.
Apenas apatia.

Adriana H. Tavares

#PHPoemaday - O Pronome

Eu, em mim.

Estudava os pronomes e cada vez menos entendia sobre eles. Tão impessoais quanto seu ego. Tão alhures ao seu humor eram os pronomes. E que nomes! 
Meu, eu, minha, comigo, tudo e todas, cada, qual e quantos. Estudava e ardia em subterfúgios de esquecer os que não lhe faziam referência. Era um nome em tantos outros a decifrar prós e contras da gramática. 
E quando havia de escrever criava lacunas nas frases dos outros. Eram as suas verbalizações que importavam, as suas nominalizações que estavam corretas no português bem escrito. Nunca em seu discurso houve um pronome pessoal que não fosse em primeira pessoa. 
Era ele (no seu eu) que proclamava dizeres e prazeres de possessividade literal. Se pudesse escreveria laudas e laudas a comentar sua importância pronominal. E sentia que dia a dia seu Eu lírico encontrava morada nos textos que escrevia e ninguém lia. Era auto suficiente, era único. 
Não ousava transcrever textos e nem sequer frases que não fossem suas. E era tal qual um pronome; pessoal, possessivo, interrogativo, relativamente demonstrativo e vez por outra indefinido. Mas acima de tudo possessivo. Nunca plural, sempre singular. Singularmente era ele, só.
Um pronome, um pro nome, um.
Até o dia que uma de nome pró-blema entrou de mansinho em sua história; e a cada frase proferida eram pros nomes um dilema: eu sou eu; e ela é ela...
De cada frase esquecida ele tornou-se dela!

Adriana H. Tavares